Universidade da Amazônia — UNAMAGraduação em Enfermagem · Belém, Pará
Assistência de enfermagem diante dos principais agravos à saúde no ciclo gravídico
A placenta implanta no lugar errado — e o útero paga a conta em sangue.
A placenta prévia é o agravo em que a placenta se implanta no segmento uterino inferior, cobrindo total ou parcialmente o orifício cervical interno. É uma das principais causas de hemorragia na segunda metade da gestação e configura risco materno e fetal: exige diagnóstico precoce e conduta obstétrica adequada (BRASIL, 2022).
1 em cada
200–300gestações. Diagnóstico cedo e ação rápida separam um bom desfecho de uma hemorragia grave.
0%
de prevalência mundial: 0,3% a 0,5% de todos os nascimentos
1/300
gestações, na faixa de 1 em cada 200 a 300
0×
mais risco após três ou mais cesáreas anteriores
0%+
dos partos no Brasil são cesáreas; mais de 50% na rede privada
0sem
marco clássico do sangramento: vermelho-vivo, indolor, a partir do 3º trimestre
<0cm
entre a borda da placenta e o orifício interno: a distância que decide a via de parto
18–24sem
quando a ultrassonografia morfológica deve olhar a localização da placenta
Taxas mais altas em países asiáticos e nas Américas, ligadas às cesáreas prévias; na África, menores, embora subnotificadas. Na região Norte, dados escassos, mas o perfil populacional favorece os fatores de risco clássicos.
E a região Norte? Dados específicos são escassos, mas alta fecundidade, multiparidade, início precoce da vida reprodutiva e mais partos por mulher favorecem os fatores clássicos, reforçando a identificação precoce no pré-natal pela ultrassonografia de rotina (BRASIL, 2022).
O blastocisto implanta no segmento uterino inferior: região pouco desenvolvida e pouco vascularizada no início da gestação, em vez do fundo uterino contrátil, ideal para a hemostasia após o parto.
Com o crescimento uterino, o segmento inferior se alonga e a placenta tende a se afastar do orifício. Por isso, a implantação baixa vista no 2º trimestre frequentemente se resolve sozinha: exige vigilância ultrassonográfica seriada, não conduta imediata.
No 3º trimestre, com a formação do segmento inferior e contrações de Braxton Hicks mais efetivas, as vilosidades aderidas sofrem descolamento parcial, rompem seios venosos e produzem o sangramento característico: vermelho-vivo, indolor e de repetição. Materno e externo (a placenta está à frente do feto), podendo levar à hipovolemia e sofrimento fetal.
Simplificação do Ministério da Saúde: prévia oclusiva × não oclusiva, com implicação direta na via de parto. A prática atual procura expressar a distância medida entre a borda placentária e o orifício interno (BRASIL, 2022; FEBRASGO, 2024).
No pré-natal: localização placentária avaliada na morfológica do 2º trimestre (18–24 semanas) e reavaliada no 3º trimestre quando identificada implantação baixa (BRASIL, 2022).
A conduta depende da idade gestacional, da intensidade do sangramento e da condição materna e fetal (BRASIL, 2022).
Cenário A
Cenário B
Cenário C
Educação em saúde no pré-natal: o enfermeiro garante que gestantes com placenta baixa saibam evitar relações sexuais, esforço físico intenso e viagens longas até a reavaliação (BRASIL, 2022; COFEN, 2009).
Modelo de folha de prescrição de enfermagem — placenta prévia, na taxonomia NANDA-I 2021–2023. Três diagnósticos, objetivos e prescrições com horários.
Mecanismo de perda excessiva de volume — sangramento vaginal potencial pela implantação placentária no segmento uterino inferior, conforme NANDA-I (2021–2023).
Manter volume de líquidos adequado; identificar precocemente sinais de choque hipovolêmico; manter a gestante hemodinamicamente estável durante o episódio de sangramento.
| Nº | Prescrição de enfermagem | Horários |
|---|---|---|
| 1 | Avaliar sinais vitais (PA, FC, FR, temperatura, SpO2) a cada 1–2h ou conforme instabilidade | 2/2h |
| 2 | Avaliar o sangramento vaginal: quantidade, cor, presença de coágulos, trocando o absorvente quando necessário e pesando-o se intenso | 4/4h |
| 3 | Manter acesso venoso periférico calibroso (20G ou 18G) pervio | contínuo |
| 4 | Administrar reposição volêmica (cristaloide) conforme prescrição médica | conforme prescrição |
| 5 | Monitorar diurese e mucosas; observar palidez, sudorese, taquicardia e hipotensão | 2/2h |
| 6 | Colher sangue para tipagem, hemograma e coagulograma conforme solicitação | uma vez / conforme prescrição |
| 7 | Orientar repouso no leito, evitando esforço físico e deambulação sem acompanhamento | contínuo |
| 8 | Educar a gestante e acompanhante a comunicar imediatamente aumento do sangramento, tontura ou palpitações | 1x/turno |
Mudança no estado de saúde (sangramento e risco para o bebê), evidenciada por verbalização de preocupação, inquietação e tensão.
Reduzir a ansiedade da gestante; promover sentimentos de conforto e segurança; facilitar o enfrentamento adequado da situação de saúde.
| Nº | Prescrição de enfermagem | Horários |
|---|---|---|
| 1 | Acolher a gestante e a família, ouvindo suas preocupações com linguagem simples e clara | 1x/turno e quando necessário |
| 2 | Explicar cada procedimento antes de realizá-lo, reduzindo o desconhecido e a sensação de perda de controle | 1x/turno |
| 3 | Manter ambiente calmo, com baixa luminosidade e ruído reduzido | contínuo |
| 4 | Estimular técnicas de respiração lenta e relaxamento | 2/2h |
| 5 | Incluir o acompanhante de escolha nos cuidados e orientações | contínuo |
| 6 | Providenciar contato com equipe médica para esclarecimento sobre o plano de parto, quando a gestante desejar | 1x/turno |
Redução do volume sanguíneo materno (hipovolemia potencial), com risco associado à perfusão útero-placentária e ao bem-estar fetal, conforme NANDA-I (2021–2023).
Manter perfusão tissular materna e o bem-estar fetal até a conduta obstétrica definitiva; reduzir o risco de sofrimento fetal e complicações da prematuridade.
| Nº | Prescrição de enfermagem | Horários |
|---|---|---|
| 1 | Monitorar bem-estar fetal: cardiotocografia e frequência cardíaca fetal conforme protocolo | 2/2h ou contínuo |
| 2 | Orientar decúbito lateral esquerdo para melhorar o retorno venoso e a perfusão uteroplacentária | contínuo |
| 3 | Avaliar movimentos fetais e relatar alterações à equipe médica | 4/4h |
| 4 | Vigilar sinais de trabalho de parto prematuro (contrações, perda de líquido ou tampão) e comunicar à equipe | 4/4h |
| 5 | Administrar corticoterapia para maturação pulmonar fetal conforme prescrição (betametasona) | conforme prescrição |
| 6 | Vigilar sinais de infecção (febre, taquicardia, odor fétido) e realizar cuidados de higiene íntima | 4/4h |
| 7 | Registrar em prontuário toda avaliação e intercorrência, garantindo comunicação efetiva entre turnos | 1x/turno |
| 8 | Preparar a gestante para cesárea eletiva ou de urgência quando indicada (jejum, higiene pré-operatória conforme protocolo institucional, cateterismo vesical de demora quando indicado) | conforme prescrição |
Legenda: 2/2h = de 2 em 2 horas; 4/4h = de 4 em 4 horas; 1x/turno = uma vez por turno. Os intervalos são referenciais e devem ser individualizados conforme a condição clínica da gestante, a prescrição médica e o protocolo institucional.
A placenta prévia é agravo gestacional de baixa frequência e alto impacto: causa relevante de hemorragia no 3º trimestre, de prematuridade e de morbidade materna. O aumento das cesáreas torna o agravo cada vez mais presente na prática obstétrica.
O papel da enfermagem percorre todo o processo: no pré-natal, identificando fatores de risco e educando a gestante; na urgência, reconhecendo o sangramento, estabilizando a paciente e contraindicando o toque vaginal; no intra e pós-operatório, monitorando hemorragia, prevenindo infecção e apoiando o vínculo mãe-filho. A sistematização da assistência garante cuidado seguro, humanizado e resolutivo.
Diagnosticada e conduzida adequadamente, tem bom prognóstico materno e fetal: a maioria evolui ao termo com recém-nascidos em boas condições, e a mortalidade materna hoje é rara em serviços estruturados (MONTENEGRO; REZENDE, 2017). Permanecem riscos:
O desfecho depende da vigilância no pré-natal, do pronto acesso ao serviço de emergência e da conduta obstétrica oportuna — papel em que a enfermagem é decisiva (BRASIL, 2022).
Diagnosticar cedo pela imagem (nunca pelo toque), vigiar a distância borda–orifício, agir pelo cenário clínico e prescrever com sistematização. É isso que separa um desfecho bom de uma hemorragia grave.
Créditos das imagens: Figura 1 — gráfico produzido para o trabalho, a partir de MONTENEGRO; REZENDE (2017) e BRASIL (2022). Figura 2 — OpenStax, Anatomy and Physiology, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons. Figura 3 — Wikimedia Commons, domínio público. Figura 4 — esquema produzido para o trabalho.