Logo da Universidade da Amazônia (UNAMA) Universidade da Amazônia — UNAMAGraduação em Enfermagem · Belém, Pará

Placenta
prévia

Assistência de enfermagem diante dos principais agravos à saúde no ciclo gravídico

Disciplina Cuidado Integral à Saúde da Mulher Professora Adriana Caxias Turma 6º semestre — manhã · ALC0070106NMB Ano 2026
Aline Marcelino da Silva 04175580 Bianca Kaylane dos Santos Silva 04161648 Maria Oneide Pantoja da Silva 042122395 Yohana Moraes dos Santos 04173920

A placenta implanta no lugar errado — e o útero paga a conta em sangue.

A placenta prévia é o agravo em que a placenta se implanta no segmento uterino inferior, cobrindo total ou parcialmente o orifício cervical interno. É uma das principais causas de hemorragia na segunda metade da gestação e configura risco materno e fetal: exige diagnóstico precoce e conduta obstétrica adequada (BRASIL, 2022).

Implantação baixa Sangramento indolor 2ª metade da gestação

1 em cada
200–300gestações. Diagnóstico cedo e ação rápida separam um bom desfecho de uma hemorragia grave.

Os números que abrem a conversa

0%

de prevalência mundial: 0,3% a 0,5% de todos os nascimentos

1/300

gestações, na faixa de 1 em cada 200 a 300

0×

mais risco após três ou mais cesáreas anteriores

0%+

dos partos no Brasil são cesáreas; mais de 50% na rede privada

0sem

marco clássico do sangramento: vermelho-vivo, indolor, a partir do 3º trimestre

<0cm

entre a borda da placenta e o orifício interno: a distância que decide a via de parto

18–24sem

quando a ultrassonografia morfológica deve olhar a localização da placenta

Gráfico com a prevalência estimada de placenta prévia por região do mundo e a distribuição por tipo clínico
Figura 1 — Prevalência estimada de placenta prévia por região e distribuição por tipo (dados ilustrativos compilados de MONTENEGRO; REZENDE, 2017 e BRASIL, 2022).

Taxas mais altas em países asiáticos e nas Américas, ligadas às cesáreas prévias; na África, menores, embora subnotificadas. Na região Norte, dados escassos, mas o perfil populacional favorece os fatores de risco clássicos.

Cirurgia uterina prévia pesa mais que tudo

10×é o risco após três ou mais cesáreas, e ele sobe a cada nova cirurgia uterina (BRASIL, 2022)

E a região Norte? Dados específicos são escassos, mas alta fecundidade, multiparidade, início precoce da vida reprodutiva e mais partos por mulher favorecem os fatores clássicos, reforçando a identificação precoce no pré-natal pela ultrassonografia de rotina (BRASIL, 2022).

  • Cesárea ou cirurgia uterina préviao fator mais importante em todas as regiões
  • Idade materna acima de 35 anos
  • Multiparidade
  • Gestações múltiplas
  • Tabagismo
  • Uso de cocaína
  • Curetagem uterina prévia
  • Anatomia uterina alteradamiomas, cicatrizes

Como se forma o problema

1

Implantação no lugar errado

O blastocisto implanta no segmento uterino inferior: região pouco desenvolvida e pouco vascularizada no início da gestação, em vez do fundo uterino contrátil, ideal para a hemostasia após o parto.

2

Migração placentária aparente

Com o crescimento uterino, o segmento inferior se alonga e a placenta tende a se afastar do orifício. Por isso, a implantação baixa vista no 2º trimestre frequentemente se resolve sozinha: exige vigilância ultrassonográfica seriada, não conduta imediata.

3

Descolamento e hemorragia

No 3º trimestre, com a formação do segmento inferior e contrações de Braxton Hicks mais efetivas, as vilosidades aderidas sofrem descolamento parcial, rompem seios venosos e produzem o sangramento característico: vermelho-vivo, indolor e de repetição. Materno e externo (a placenta está à frente do feto), podendo levar à hipovolemia e sofrimento fetal.

O que define o diagnóstico: a relação entre a borda placentária e o orifício cervical interno, medida por ultrassonografia. A persistência da implantação baixa após a 32ª semana costuma ditar o quadro, mas é a distância borda–orifício que orienta a conduta (BRASIL, 2022).
Comparação entre a implantação normal da placenta no corpo uterino e a placenta prévia, cobrindo o orifício interno do colo uterino
Figura 2 — Implantação normal × placenta prévia, com a cobertura do orifício interno do colo uterino. Rótulos em inglês conforme a fonte. Fonte: OpenStax, Anatomy and Physiology (licença CC BY 4.0), via Wikimedia Commons.

Os quatro tipos

Placenta prévia total: a placenta cobre totalmente o orifício cervical interno. É o quadro de maior risco de hemorragia e o que define, de forma mais clara, a via de parto por cesárea.

Simplificação do Ministério da Saúde: prévia oclusiva × não oclusiva, com implicação direta na via de parto. A prática atual procura expressar a distância medida entre a borda placentária e o orifício interno (BRASIL, 2022; FEBRASGO, 2024).

Esquema dos tipos de placenta prévia: normal, marginal/baixa e parcial/oclusiva total
Figura 4 — Esquema dos tipos: normal, marginal/baixa e parcial/oclusiva total.
Desenhos anatômicos da placenta prévia total, à esquerda, e parcial, à direita
Figura 3 — Placenta prévia total (à esquerda) e parcial (à direita). Fonte: Wikimedia Commons (domínio público).

Sinais que não se negocam

  • Sangramento vermelho-vivo, indolor, súbitogeralmente a partir do 3º trimestre (marco clássico: 28 semanas ou mais)
  • Sangramento de repetiçãoem pequenas perdas ou episódios maiores, sem causa aparente
  • Útero relaxado e indolorao toque, sem contração efetiva no momento do sangramento
  • Feto em apresentação alta ou anômalapela interferência da placenta no polo inferior
  • Choque hipovolêmico nos casos abundantestaquicardia, hipotensão, palidez, sudorese, oligúria
  • Sofrimento fetalem sangramentos volumosos — alterações da frequência cardíaca fetal

Confirmar por imagem, agir pelo cenário

Ultrassonografia transvaginalpadrão-ouro: mede a distância borda–orifício com segurança, sem desencadear sangramento
Ultrassonografia transabdominalútil no rastreio; menor acurácia com bexiga cheia — pode simular prévia
Ressonância magnéticacasos duvidosos, sobretudo associados a placenta acreta
Avaliação laboratorialhemograma, tipagem e fator Rh, coagulograma, preparo para transfusão
Cardiotocografia e perfil biofísicoavaliação do bem-estar fetal

No pré-natal: localização placentária avaliada na morfológica do 2º trimestre (18–24 semanas) e reavaliada no 3º trimestre quando identificada implantação baixa (BRASIL, 2022).

Tratar pelo cenário

A conduta depende da idade gestacional, da intensidade do sangramento e da condição materna e fetal (BRASIL, 2022).

Cenário A

Assintomática ou sangramento mínimo · feto pré-termo

  • Conduta expectante: vigilância ambulatorial ou hospitalar, repouso relativo
  • Corticoterapia para maturação pulmonar (betametasona) entre 24 e 34 semanas; imunoglobulina anti-D quando indicado (Rh negativo)
  • Sem antibioticoprofilaxia rotineira — só diante de outra indicação obstétrica (ex.: corioamnionite)
  • Orientação de retorno imediato em caso de novo sangramento

Cenário B

Sangramento moderado ou grave · feto prematuro

  • Internação hospitalar; acesso venoso calibroso e reposição volêmica com cristaloide
  • Tipagem e cruzamento de sangue; transfusão quando necessário
  • Monitorização materna (sinais vitais, diurese) e fetal (cardiotocografia contínua)
  • Estabilização; se o sangramento for incontrolável, interrupção da gestação — independentemente da idade gestacional

Cenário C

Feto maduro · 36 a 37 semanas ou mais

  • Cesárea eletiva é a via de escolha na placenta prévia oclusiva, e geralmente indicada quando a borda está a menos de 2 cm do orifício interno
  • Sempre contextualizada: apresentação fetal, experiência da equipe e dinâmica do sangramento
  • Equipe pronta para hemorragia obstétrica: hemostáticos, protocolo de transfusão massiva, tratamento cirúrgico (ligaduras, suturas compressivas, histerectomia em casos extremos)
Acolhimento e avaliação rápidasinais vitais, caracterização do sangramento, avaliação fetal
Acesso venoso e coleta de exames
Monitorização contínuamaterna e fetal
Suporte emocionalà gestante e à família
Orientações de sinais de alerta
Preparo pré-operatórioquando indicada a cesárea

Educação em saúde no pré-natal: o enfermeiro garante que gestantes com placenta baixa saibam evitar relações sexuais, esforço físico intenso e viagens longas até a reavaliação (BRASIL, 2022; COFEN, 2009).

Enfermagem em ação

Modelo de folha de prescrição de enfermagem — placenta prévia, na taxonomia NANDA-I 2021–2023. Três diagnósticos, objetivos e prescrições com horários.

Relacionado a

Mecanismo de perda excessiva de volume — sangramento vaginal potencial pela implantação placentária no segmento uterino inferior, conforme NANDA-I (2021–2023).

Objetivos

Manter volume de líquidos adequado; identificar precocemente sinais de choque hipovolêmico; manter a gestante hemodinamicamente estável durante o episódio de sangramento.

Prescrição de enfermagemHorários
1Avaliar sinais vitais (PA, FC, FR, temperatura, SpO2) a cada 1–2h ou conforme instabilidade2/2h
2Avaliar o sangramento vaginal: quantidade, cor, presença de coágulos, trocando o absorvente quando necessário e pesando-o se intenso4/4h
3Manter acesso venoso periférico calibroso (20G ou 18G) perviocontínuo
4Administrar reposição volêmica (cristaloide) conforme prescrição médicaconforme prescrição
5Monitorar diurese e mucosas; observar palidez, sudorese, taquicardia e hipotensão2/2h
6Colher sangue para tipagem, hemograma e coagulograma conforme solicitaçãouma vez / conforme prescrição
7Orientar repouso no leito, evitando esforço físico e deambulação sem acompanhamentocontínuo
8Educar a gestante e acompanhante a comunicar imediatamente aumento do sangramento, tontura ou palpitações1x/turno

Legenda: 2/2h = de 2 em 2 horas; 4/4h = de 4 em 4 horas; 1x/turno = uma vez por turno. Os intervalos são referenciais e devem ser individualizados conforme a condição clínica da gestante, a prescrição médica e o protocolo institucional.

Vigilância sistemática, resposta rápida

A placenta prévia é agravo gestacional de baixa frequência e alto impacto: causa relevante de hemorragia no 3º trimestre, de prematuridade e de morbidade materna. O aumento das cesáreas torna o agravo cada vez mais presente na prática obstétrica.

O papel da enfermagem percorre todo o processo: no pré-natal, identificando fatores de risco e educando a gestante; na urgência, reconhecendo o sangramento, estabilizando a paciente e contraindicando o toque vaginal; no intra e pós-operatório, monitorando hemorragia, prevenindo infecção e apoiando o vínculo mãe-filho. A sistematização da assistência garante cuidado seguro, humanizado e resolutivo.

Prognóstico

Diagnosticada e conduzida adequadamente, tem bom prognóstico materno e fetal: a maioria evolui ao termo com recém-nascidos em boas condições, e a mortalidade materna hoje é rara em serviços estruturados (MONTENEGRO; REZENDE, 2017). Permanecem riscos:

Hemorragia grave com choque Transfusão de hemocomponentes Infecção puerperal Prematuridade Baixo peso ao nascer Placenta acreta → histerectomia

O desfecho depende da vigilância no pré-natal, do pronto acesso ao serviço de emergência e da conduta obstétrica oportuna — papel em que a enfermagem é decisiva (BRASIL, 2022).

O que fica da apresentação

Diagnosticar cedo pela imagem (nunca pelo toque), vigiar a distância borda–orifício, agir pelo cenário clínico e prescrever com sistematização. É isso que separa um desfecho bom de uma hemorragia grave.

Referências

  • BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Ações Programáticas. Manual de gestação de alto risco. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. 692 p. Disponível em: bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_gestacao_alto_risco.pdf. Acesso em: 05 set. 2026.
  • MONTENEGRO, Carlos A. B.; REZENDE FILHO, Jorge de R. Rezende Obstetrícia. 13. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017.
  • CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução COFEN nº 358/2009. Dispõe sobre a Sistematização da Assistência de Enfermagem e a implementação do Processo de Enfermagem. Rio de Janeiro: COFEN, 2009.
  • FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA (FEBRASGO). Tratado de Obstetrícia FEBRASGO. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2024.
  • HERDMAN, T. H.; KAMITSURU, S.; TAKAHASHI LOPES, C. (org.). NANDA-NIC-NOC: conexões de diagnósticos, resultados e intervenções de enfermagem. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2021.
  • NANDA INTERNATIONAL. Diagnósticos de enfermagem da NANDA: definições e classificação 2021-2023. 12. ed. Porto Alegre: Artmed, 2021.

Créditos das imagens: Figura 1 — gráfico produzido para o trabalho, a partir de MONTENEGRO; REZENDE (2017) e BRASIL (2022). Figura 2 — OpenStax, Anatomy and Physiology, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons. Figura 3 — Wikimedia Commons, domínio público. Figura 4 — esquema produzido para o trabalho.